Shop online!

A Lanidor convida “Shop online!” e eu, cada vez mais, alinho. Promessa de entrega entre dois a cinco dias úteis (pequeno resvalanço desta vez, mas estão perdoados porque a época é de lufa-lufa para os transportadores e correios expresso e a Quadra é de compreensão e perdão); o conforto que é não ter que me deslocar, não andar à cotovelada e não encontrar uma loja feita numa feira!; os pacotes vêm cuidadosamente acondicionados; as peças embrulhadas em papel celofane; os embrulhos feitos e amorosos (hoje em dia é um luxo pedir para embrulhar e até já há onde se negue saco!); sacos, etiquetas, laços e talões sem preço incluídos num envelope à parte; o cuidado de trazerem os preços tapados; a facilidade para trocas ou devoluções (os senhores que trazem as compras também as vêm buscar se for preciso devolver, o mesmo conforto garantido) e, depois ou acima de tudo, é negócio nacional!

Aaah, o Natal!… (desta vez sem ironia) Ontem tinha zero presentes comprados; hoje tenho metade aviada e mais alguns presentes de aniversários desta época, olarilas!

As pessoas tiram estes dias de férias para andarem às compras, é?

Desafio-te a ires do ponto A para o ponto B na cidade de Lisboa por estes dias de vésperas de Natal em menos de 30 minutos.

Não há pachorra para as filas a qualquer hora do dia. Um quarto de hora para contornar a Praça de Espanha, outros quinze minutos para a rotunda de Entrecampos, os semáforos que variam entre o verde e o vermelho sem que tu te tenhas mexido do teu lugar na fila, a sério… não tenho pachorra para este fenómeno natalício.

E ainda nem entrei num shopping… aí, acho que me lanço da ponte! Espera. Não lanço, para não ser por minha causa que se formam mais filas. Mas fica a ideia.

rotina matinal

6:30 – Toca o meu despertador. Viro-me para o lado e começo a acordar devagarinho. O corpinho quente dele está logo ali, que se esgueirou para a nossa cama com a desculpa de um chichi noturno.

7:00/7:10 – Saio da cama e assumo uma posição. Tem que ser, tenho que me levantar e enfrentar o touro pelos cornos, ‘bora lá começar o dia.

7:45 – Estou de banho tomado, vestida, calçada e pintada, pronta para sair de casa. Só que não. Eles ainda dormem e sou que quem os prepara e leva à escola. Desejavelmente antes das 9h30, pedagogicamente falando. Desejavelmente a tempo de eu própria estar antes das nove no meu escritório, a pelo menos 20 minutos de caminho, utopicamente falando!

8:00/8:10 – A papa dele pronta. O leite dela aquecido a uma temperatura que prevê o tempo que vou demorar com ele antes de poder chegar a ela, suficientemente quente para ir arrefecendo enquanto isso mas não tão pouco quente que já lhe chegue frio. Abeiro-me da cama, (a pouca) luz do dia de inverno a entrar e dou-lhe beijinhos. Ronrona e respira fundo. Faz-me festinhas. Rebola-se. Os olhos fechados – é igual a mim, também tem que tomar uma posição no momento de acordar e custa-lhe muito, coitadinho, como o compreendo!… E tal como eu, acorda com birra de sono. Eu, que já levo 37 anos disto, já me sei resolver, mas ele ainda só tem três anos de experiência e por isso revolta-se muito, sai da cama enfurecido e determinado, grita e deixa marear os olhos por não encontrar a sua mota e o seu martelo que eu, que sou mãe dele e que o conheço melhor que ninguém, já antecipando o momento, trouxe comigo e com a papa para dentro do quarto. “Estão aqui, Manel”, mas ele zanga-se à mesma sem saber bem porquê e atira com a mota e o martelo ao chão. Que não quer ir fazer chichi. Que não quer comer a papa. Que não quer o estore para cima. Que não quer ver bonecos. Chora alto e eu respiro fundo e rezo para que não me acorde a miúda, que o leite ainda está a ferver e eu sozinha com os dois a chorar é que choro também e mando a disciplina positiva às urtigas em dois tempos. Giro a crise, dou miminhos, é assim que a coisa vai lá.

8:30 – Ela acorda mas eu ainda estou a atar os sapatos dele. É só mesmo mais um niquinho, filha, espera aí, não chores muito, não chores mais, por favor, odeio que chorem, não quero que penses na tua cabecinha pequenina que estás praí no escuro abandonada à tua sorte de fralda ensopada e cheia de fome. Espera aí *beijinho nele + “a mamã vai buscar a Jú, está bem?” + Dora a Exploradora no Panda*

8:45 – Dou o biberão, troco fralda, visto a polva, três camadas de roupa que lhe entra pela cabeça e que lhe faz confusão, lavo-lhe a cara e os dentes enquanto ela grita porque a água fria contrasta com o quentinho de dormir e porque quer lavar os dentes sozinha (vejam só! 18 meses de gente e 12 dentes, pfff, a autónoma empertigada!). Por esta altura penso “eu devia estar a entrar agora…” mas abandono a ideia e só rezo para que não haja um cocó de última hora. Ou dois.

9:10 – Está tudo. Mas passa das nove e ainda falta desligar a tv (outro bom motivo para fita e por à prova as minhas capacidades de educadora positiva!), vestir casacos, por no ovo e na cadeirinha, e finalmente sair.

9:19 – É quando o carro começa a trabalhar.

9:39 – É quando saio da escola, depois dos dois entregues com calma e sem correr, o mais “com qualidade” possível, sem lágrimas (nem deles nem minhas) e sem que se sintam despejados. Sei que não se sentem ali largados porque o Manel vem atrás de mim aos saltinhos. E quando lhe digo a sorrir “então mas o que é isto? um filho fujão?”, responde “mas eu quero ir contigo até à porta!” e como lhe mostro confiar nele, continuando a andar e permitindo que me acompanhe de facto até à porta, apenas com um “ah sim? e vai voltar já a correr prá sua sala?”, como me agacho para o abraçar e me despeço sem ralhar “até logo! amo-te muito!”, ele abraça-me num “até uógo, mamã!” e, já aos saltinhos de volta, ainda o oiço, já do lado de lá da esquina “amo-te, mamã!” e isto fica a ecoar no corredor da escola e no meu coração o dia todo.

A minha guerra contra o tempo ainda vai a meio, ainda vou chorar muito naqueles vinte minutos de caminho até ao escirtório, mas pelo menos com eles, para eles, por eles, eu sou toda disponibilidade e sorrisos.

Cheguei às 10:00:52.