É de cortar os pulsos

Contam-se pelos dedos das mãos, com jeito bastava uma, os dias úteis deste mês em que fui ao escritório.

Reação alérgica a iogurte de framboesa com banana, herpangina, um vírus monolike (da família da mononucleose, devo dar-me por sortuda por não ter sido O vírus da mononucleose porque esse parece que é bicho para os atirar para meses de quarentena), agora uma congestão nasal com direito a antibiótico, olha… Vou só ali cortar os pulsos com uma lima e já volto.

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Educar para mudar o mundo

Enquanto lhe passava o papel depois de fazer chichi:

– “mamã, mas há meninos na minha escola que não uimpam a piuinha”

– “ai sim, filho? Quem?”

– “muitos meninos da minha escola não uimpam as suas piuinhas”

Apeteceu-me esmiuçar, perguntar exatamente quem e dizer-lhe que eles não limpavam porque os papás deles com certeza também não, mas depois lembrei-me que eles, nesta idade, já conhecem os avós e os pais de todos os meninos da escola e um dia destes ainda me surpreendia com um dedo em riste e um “óia, mamã, aqueue que vai auí é o pai do não sei quantos e ele, com certeza, não uimpa a sua piuinha”, e como prefiro não imaginar os pais dos amigos do meu filho todos nus, limitei-me a dizer-lhe “Olha, filho, mas tu limpa sempre porque é uma grande porcaria não limpar as pilinhas”.

Estou convencida que um dia algum dos outros, dos que não se limpam, há de dizer ao seu pai “Oh pai, o Manel da minha sala limpa a pilinha com papel depois de fazer chichi” e que esse pai lhe há de dizer que o meu Manel “anda a ser educado pela mãe, esse mariquinhas, que limpa com papel, uuuuuh…”. Espero que isto não dê lugar a bullying e que haja mais meninos a limpar a sua pilinha ao vê-lo.

Ele tem saudades dela

Têm andado doentes à vez. Um destes dias até acumulei os dois em casa. Tem sido uma confusão com as horas a que dar ben-u-ron, as horas a que dar Brufen, mais as gotas disto e as gotas daquilo, quem já teve soro no nariz, quem ainda não, estou a queimar fusíveis com o dar o quê a quem quando!

Mas, bom, isto pra dizer que desta vez é ele que está em casa e ela quem vai à escola. Ontem, quando ela chegou a casa, ele, que estava meio prostrado e já sem saber como se entreter, correu para a receber com um sorriso na cara e os olhos lacrimejantes da febre, coitadinho, uma ternura que parecia uma cena de um filme. Mas cómico, porque ao chegar ao pé dela deu-lhe logo um piparote. 

Hoje, ao acordar, só estávamos os dois, e ele ainda ensonado pergunta-me “a minha mana?” Expliquei “foi para a escola.” E ele, com certeza sem perceber o que se passa na sua própria cabeça e coração, verbalizou “mas eu tenho saudades dela”

Era isto. Era mesmo isto que eu sonhava quando imaginava uma família. A seguir pode atirar-se a ela e estrafegá-la, pode fazer-lhe rasteiras e por-se à sua frente a fazer peito para ela não passar, tudo bem. Conquanto que lá dentro se estejam a passar sentimentos destes, a mãe é feliz.

O elefante e a formiga

Quando a II Guerra Mundial acabou, depois de dois ataques nucleares ao Japão, o mundo bipolarizou: EUA e o mudo ocidental de um lado, URSS  e seus satélites do outro. No meio, a arma nuclear e a corrida ao armamento, sendo certo que, depois do nuclear, a guerra nunca mais seria igual. A partir do nuclear, que destrói tudo, não só o teu inimigo mas a ti também, ficou certo que nunca mais poderia haver guerra como até ali. É importante ter arma nuclear por uma questão de intimidação, dissuasão, demonstração de força. Mas quem a tem sabe que não a pode usar. Por isso se chamou àquela nova forma de conflito Guerra Fria, porque mesmo armados até aos dentes e mesmo detendo a mais destruidora de todas as armas, os países ou alianças de países, não podiam guerrear se não num nível periférico (movimentando influências nos conflitos dos outros).

O que se passou ontem em Paris foi inédito. Não foi a primeira vez que o mundo ocidental sofreu um ataque terrorista mas foi a primeira vez que ficou provado que basta um plano concertado e meia dúzia de granadas e pistolas bem munidas para fazer tremer quem até detém armamento nuclear. Como a história da formiga e do elefante.

Mais, pela primeira vez o alvo dos ataques foram locais de lazer e diversão. Não alvos geoestrategicos nem centros políticos ou empresariais.

Conto os dias até ao fim do acordo Schengen, esse instrumento preciosíssimo da liberdade de circulação que gerações como a minha e seguintes já dão como adquirida. Já ninguém se lembra de ter que ficar horas no carro na fila da alfândega para ir comprar caramelos. Mas é um privilégio nosso, na Europa (e não em toda a Europa, é bom lembrar). E agora acredito que tenha bastado uma pistola a disparar sem critério numa sala de concertos à pinha para mandar essa liberdade toda ao ar. Não é, definitivamente, preciso ter o nuclear para se ser coercivo. A guerra, hoje em dia, faz-se de outras maneiras e as cócegas de uma “formiga” extremista bem orquestrada bastarão para fazer vergar os “elefantes” de hoje em dia.

foto minha em Schengen, Luxemburgo, com a Alemanha do lado de lá do rio Mosel e a França ao fundo à direita. O Acordo de Schengen foi ali assinado pela geografia simbólica: Schengen fica no Luxemburgo junto à tríplice fronteira França-Alemanha-Luxemburgo, que, ali, representava os países do Benelux (onde já se circulava livremente), todos fundadores da CEE.
foto minha em Schengen, Luxemburgo, com a Alemanha do lado de lá do rio Mosel e a França ao fundo à direita. O Acordo de Schengen foi ali assinado pela geografia simbólica: Schengen fica no Luxemburgo junto à tríplice fronteira França-Alemanha-Luxemburgo, que, ali, representava os países do Benelux (onde já se circulava livremente), todos fundadores da CEE.

Para memória futura

  

A grande chatice é que, quando lho forem cobrar, faz como tem feito em tudo até aqui, dá o dito por não dito, sublinha palavras como “progressivamente”, “provavelmente” e outros advérbios de modo que atirem com isto tudo para o definitivo campo da demagogia e da ridicularia. 

E nisto a bolsa a pique, as parangonas lá fora a envergonharem-nos quando há bem pouco tempo nos elogiaram (ao governo Passos-Portas, a bem dizer), os ivestidores a retraírem e a conclusão de que foi em vão o esforço dos últimos anos deste povéu (sim, é depreciativo, porque estou cá irritada com quem achou que era engraçado deitar fora votos no PAN ou que passava uma mensagem importante ao votar no BE e agora nos pôs nisto).

Portugrécia pronto para Costsipras, sessenhores… Não dou nem dois meses para estar em cima da mesa uma proposta da extrema esquerda para sairmos da moeda única e voltarmos… ao dracma.